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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

BREVE HISTÓRIA DO CONCURSO NACIONAL DE ABELHAS SEM FERRÃO - AME-RIO

 

Em 2009 a AME-RIO realizou o primeiro concurso Nacional de méis de abelhas sem ferrão alçando os meliponicultores e as abelhas nativas sem ferrão a um novo patamar. O então presidente Pedro Paulo Peixoto estabeleceu parâmetros de classificação dos méis junto a grandes nomes da época. Naquele tempo o mel era associado somente à doçura e medicina. Visionário e criterioso montou um curso de degustadores, de modo a treinar paladares capazes de reconhecer os sabores singulares das nossas abelhas nativas: acidez, aromas, notas diferenciadas. Empenhou-se tanto a essa meta que também realizava mensalmente degustações entre todos os associados, e até mini concursos, ao ponto de a grande maioria dos associados conseguir distinguir a espécie de abelha que originava cada amostra.

Passado o bastão da organização, ao longo dessas oito últimas edições do Concurso Nacional eu, o prof. Rogério Alves e Eugenio Mbee temos alterado gradativamente as regras do concurso em função da resposta que a sociedade vem apresentando ao conhecer e experimentar os diferenciados sabores dos méis das abelhas nativas sem ferrão.

Antes separávamos as amostras por tipo de conservação: desumidificado, maturado, congelado, refrigerado.  Mas os próprios criadores foram se especializando ao ponto de combinar maturação com desumidificação obtendo tempo de prateleira associado ao “uau!” do paladar que só o mel refrigerado proporcionava. Atualmente não fazemos mais essas distinções.

Quanto aos parâmetros de julgamento, já tivemos cinco ou até seis. Incluíamos cor, brilho, densidade. A experiência das diversas edições associada à comprovação científica demonstraram que cor, densidade e brilho no universo das abelhas nativas sem ferrão não se relacionam à capacidade da amostra provocar uma melhor ou pior experiência gustativa.

Avaliamos a possibilidade de considerar notas gustativas também como um parâmetro para classificação, mas concluímos que são impressões muito particulares de cada amostra de mel, sem muita possibilidade de repetitividade, pois dentro de uma única caixa de abelha pode-se achar grupos de potes de mel com notas gustativas completamente diferentes.

Então saber se amostra de mel era de caixa única ou da mistura de várias caixas foi um dado importante que anotávamos, pois dava ideia se a amostra representava a região como um todo ou apenas um grupo floral reduzido. Em todas as cédulas de votação os jurados anotavam suas impressões sobre as notas gustativas, e só passávamos para os próprios meliponicultores, quando percebíamos a possibilidade de ter uma amostra de múltiplas caixas com aptidão de representar um mel terroir da região, o que poderia abrir caminhos, por exemplo, para o pedido de uma Indicação Geográfica.

Então fomos evoluindo e divulgando ideias, experiências e técnicas. O número de amostras continuou crescendo não só em quantidade, mas também em variabilidade de espécies de abelhas.

Nos primeiros concursos os méis das diversas uruçus, mandaçaias, jataís, manduris, etc, todos causavam impacto aos novatos nesse mundo das abelhas nativas. Todos são méis de personalidades gustativas particulares frente aos tradicionais méis de Apis Melífera. Chefs de cozinha se apaixonaram por essa nova paleta de sabores, não só dos méis como dos saburás desidratados. A internet facilitou a disseminação, os criadores se multiplicaram rapidamente, e cada vez mais têm surgido amostras de méis muito especiais.

Ao longo dessas oito edições de concurso, a Mbee se juntou a nós como parceiro e por meio dela conseguimos dar a justa visibilidade que esses méis mereciam junto ao mercado, especialmente frente a um público muito exigente por qualidade. Vários participantes tiveram seus méis acrescidos dentre o portfólio da Mbee, e reconhecidos passaram a ter uma nova perspectiva de mercado. Não só puros, mas também combinados às receitas de panetones, cervejas e espumantes. A Academia do Mel estabeleceu imersão sensorial anual voltada para a valorização da biodiversidade de abelhas nativas sem ferrão, dos méis brasileiros e seus produtores.

Dra Mônica Barth e Prof. Rogerio Alves, pioneiros na parceria, vêm nos dando sempre apoio científico e por meio do conhecimento e trabalho deles pudemos repassar informações valiosas aos criadores. Diversas porções de amostras fizeram parte de pesquisas científicas na área de fármacos da UFRJ por meio do Prof. Igor e sua equipe. Outros pesquisadores também conseguiram somar nesses anos de convivência. Enfim, foram anos de trocas de informações que trouxeram benefícios aos envolvidos nessa corrente de aprendizado.

O Concurso Nacional de Méis de abelhas sem ferrão AME-RIO atingiu seus objetivos primordiais: Disseminamos entre a população a informação de que existem méis diferentes além dos conhecidos méis de Apis melífera, introduzimos e popularizamos um universo de sabores de méis produzidos por abelhas nativas a partir de plantas nativas, incentivamos uma nova cadeia produtiva, jogamos luz a um produto que circulava somente na tradição quase perdida da nossa gente da terra.

É uma emoção acompanhar a evolução da visibilidade de participantes do Concurso Nacional, como Kalhil de Mossoró que mostrou a potência produtora das Jandaíras, o Yuri do “Nativas do Pará” que apostou que os méis das nativas poderiam receber um empreendimento em grande escala, mulheres guerreiras como Jeicy Ramos do Pará, Maria Paulino produtora rural do Acre, Aldenora do Amazonas que possuíam suas caixas apenas como um recurso secundário mas que depois de serem premiadas tiveram seus trabalhos reconhecidos, o Guerreiro de Boa Vista do Ramos que contribuiu para alçar os méis da sua comunidade a um ativo social/econômico como a primeira Indicação Geográfica exclusivamente de produto meliponini reconhecida pelo INPI, esses e muitos outros exemplos variados conseguiram de alguma forma dar um valor especial aos seus méis depois de participarem do Concurso Nacional AME-RIO.

Nessa caminhada percebemos que os méis das uruçus, mandaçaias, jataís, manduris, etc conquistaram um lugar de destaque e um reconhecimento cada vez maior pelo público em geral. Do mais leigo ao mais exigente paladar. Entretanto no cenário atual, com o aumento da variabilidade de amostras, especialmente na última edição, também entendemos que se continuássemos a categorizar da mesma forma estaríamos cometendo injustiças.

Esse ano a AME-RIO está inovando mais uma vez. Percebemos a formação de correntes diferentes de degustadores de méis de abelhas nativas. Existe uma grande massa de degustadores que se encantam com os sabores diferenciados e diversidade de sensações organolépticas proporcionadas pelos méis de abelhas sem ferrão. Do mesmo modo dos apreciadores de um bom vinho, conseguem ver nesses méis um produto especial, e realmente são. Pois pode-se dizer que são méis brasileiros, produzidos por abelhas nativas a partir de uma flora nativa. São méis que conquistaram seu reconhecimento público e estabeleceram seus valores diferenciados. A esses passamos a categorizar como “típicos”. E o primeiro colocado nessa nova categoria ganhará o “TROFÉU MEL DESTAQUE”.

Mas uma nova vertente de apreciadores está buscando e descobrindo em alguns méis notas particulares, e até capacidades específicas, como a de transmutar sabores quando combinados com outras iguarias. Transformam a degustação de uma carne, de um cogumelo ou de um queijo. Geralmente méis de espécies de abelhas de difícil manejo, raras ou de baixíssima produção.

Esses méis apesar de terem uma personalidade forte quando degustados sozinhos, ocultam seus talentos de transmutação, e pouquíssimas pessoas são capazes de reconhecê-los dentre os demais, pois se escondem até mesmo dos paladares mais treinados em reconhecer a maioria das notas gustativas. No entanto, quando combinados com a iguaria correta, tcham tcham tcham, agem e o resultado é surpreendente. O jurado precisa ser perspicaz para ler a alma desses méis, pois em uma degustação isolada podem receber notas baixas se comparados com outros. A esses passamos a categorizar como méis “atípicos”. E o primeiro colocado nessa nova categoria ganhará o “TROFÉU MEL DISTINTO”.


Essa nova categoria visa à tentativa de dar maior reconhecimento e incentivos aos criadores de abelhas que fornecem méis que apresentam sensações organolépticas inusitadas e extravagantes, e que se afastam dos parâmetros típicos de sabores esperados, mesmo para os apreciadores de méis de abelhas sem ferrão. São para um tipo de mel que tem tido um aumento em suas inscrições nas disputas, mas que geralmente não tem escala de produção em termos comerciais, e que na edição anterior do Concurso Nacional de Méis de Abelhas Sem Ferrão, por suas características diferenciadas receberam Menções Honrosas de participação.

Esperamos assim apontar mais um caminho a ser trilhado, em que possamos não gerar injustiças e reconhecer que a diversidade dos produtos meliponínis nos convidam a sair das caixinhas tradicionais, as quais podem limitar nossas atividades a adaptações de técnicas conhecidas.  

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

ROQUE partiu - Céu recebe mais um Mestre da Meliponicultura

 02/Agosto/2024 - O Céu recebe mais um Mestre da Meliponicultura

Roque faz parte da história da AME-RIO. Foi um dos fundadores em 2007.

Não gostava de aparecer, mas era um expert na Meliponicultura.

Extremamente observador do comportamento das abelhas, sempre me passava muitas experiências para serem repassadas aos sócios nas palestras e aulas de capacitação.


Não gostava de falar para plateia, mas quando a gente conseguia fazer ele falar, eram muitas histórias e experiências . Acrescentou muito conhecimento sobre vários temas da meliponicultura a partir de suas observações apuradas. Quem o conhecia de perto percebia a paixão pelas abelhas nativas.

 

Mas ele tomou gosto por dispersar sementes, e semeou muita abelha nativa entre a criançada.

Era meu correspondente do “primeiro bom dia” ainda na madrugada. Indo para o trabalho às 6:00 da manhã dentro do ônibus, muitas vezes trocando mensagens com ele. Ao vivo, eram sempre longas histórias e muita alegria! Um Companheiro, Amigo que vai deixar uma lacuna e muita saudade.

Deus o chamou, para novos planos. Um Time de primeira se formando nos Jardins de Deus. Com certeza foi recebido de braços abertos por outros Grandes Mestres.

Entre nós, quero permanecer com a imagem positiva dele, sempre contando histórias e rindo!

E o último desejo dele é: "Vivam a vida!" Semeiem as coisas boas, com a doçura das abelhas, semeiem a alegria, o conhecimento, a amizade...
Esse foi o recado que ele me deixou na madrugada antes de partir:

 

quarta-feira, 5 de junho de 2024

No Meio Ambiente

No meio ambiente tinha uma abelha
tinha uma abelha no meio ambiente
tinha uma abelha
no meio ambiente tinha uma abelha.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio ambiente
tinha uma abelha
tinha uma abelha no meio ambiente
no meio ambiente tinha uma abelha.

Nunca me esquecerei desse conhecimento
na vida de minhas flores tão visitadas.
Nunca me esquecerei que no meio das flores
tinha uma abelha
tinha uma abelha no meio das flores
no meio das flores tinha uma abelha.

Nunca me esquecerei desse contentamento
na vida de minhas flores tão coloridas.
Nunca me esquecerei que no meio das flores
tinha uma abelha
tinha uma abelha no meio, sem açoite
no meio das flores tinha uma abelha doce e meiga.

Nunca me esquecerei desse sentimento
na vida de minhas flores tão cuidadas.
Nunca me esquecerei que no meio das flores
tinha uma abelha
tinha uma abelha no meio tão brasileira
no meio das flores tinha uma abelha melipona.



sexta-feira, 16 de junho de 2023

O Valor das Abelhas Sem Ferrão

A abelha sem ferrão tem vivido ciclos de visibilidade em sua própria terra. Antes de 2000, e do advento das redes sociais, sabiam sobre sua existência somente do cerrado para cima, principalmente todas as regiões norte e nordeste. Conhecimento comum de caboclos, índios, ribeirinhos, sertanejos, matutos e povo circunvizinhos. O seu mel fartamente consumido e admirado por todos. Suas propriedades medicinais valorizadas. Sua proximidade nas lavouras pomares, sempre bem quista. Sua existência é tão normal como cachorros e gatos no quintal!

Na primeira década do século XXI ainda era uma desconhecida dos brasileiros do meridiano 16º S para baixo. As academias diplomavam neófitos que sequer sabiam que abelhas poderiam não ter ferrão. Escolas ensinam as crianças que abelhas Apis melíferas são as polinizadoras de nossas matas nativas. Nos livros didáticos e notícias só figuram as abelhas exóticas.

 A partir dessa época a tecnologia digital abriu espaço para a formação de grupos e forums de pessoas por assuntos de interesse, e assim juntaram-se alguns gatos pingados que de alguma forma conheciam as abelhas nativas: seja por herança cultural, ou viagens para cima do meridiano 16ºS. Período em que foi criado o grupo ABENA no “Yahoo Groups”, e que a AME-RIO foi fundada (2007). 

Apesar das abelhas sem ferrão sempre existirem em todo território brasileiro, foi a partir dessa época que ela passou a ser conhecida nas regiões mais “ricas” do país. Teve matéria até na Forbes! Um novo ciclo de reconhecimento a nível nacional se inicia para as abelhas nativas. Como não poderia deixar de acontecer, o mel maravilhoso produzido pelas nativas despertou interesse geral. São como uma carta de vinhos nobres, e diferenciados a cada safra. Sabores mais complexos foram descobertos pelos Chefs da alta gastronomia, tanto no mel como em seu pólen. 

As abelhas sem ferrão ganharam força e status com as novas redes sociais, mais rápidas e penetrantes, que disseminam a sua existência aos sete ventos na velocidade de um raio. Assim um outro ciclo ganhou espaço, e agora são incontáveis as inserções sobre o assunto em variadas programações televisivas. Escolas primárias ou levam alunos em meliponários públicos, ou criam meliponários em seus próprios pátios recreativos. Na academia cresce a quantidade de pesquisadores interessados em aprofundar o conhecimento sobre elas e seus produtos. Políticos começam a legislar sobre a atividade. Uma onda de associações de meliponicultores cobre os estados federativos. 


A visibilidade aumenta assustadoramente e inicia-se uma elitização dos produtos, bem como muita informação desencontrada, ou mal direcionada.
A AME-RIO participou e influenciou em muitos desses ciclos e procurou atuar em suas consequências. Temos incentivado algumas consideradas positivas, e  combatendo outras que achamos perniciosas.
Mas ainda estamos batendo em uma tecla pouco conhecida: o alto nível de eficiência da polinização provocada pelas abelhas sem ferrão. Apostamos que esse será o próximo ciclo de reconhecimento sobre as nossas nativas. E por isso, que por dez anos, temos mantido um capítulo especial em nossos cursos de capacitação, e temos dedicado tempo e esforço semeando a informação em palestras, workshop, folders de divulgação, no nosso Gibi infantil, ou em qualquer outra oportunidade de comunicação.
E sobre esse assunto, me chamou a atenção uma palestra que ouvi do Dr. Décio Luiz Gazzoni, engenheiro agrônomo M.Sc. em entomologia, pesquisador da Embrapa Soja Londrina. Nessa palestra ele fala sobre a importância da polinização das abelhas em uma plantação comercial de soja. Seu foco não são as abelhas nativas, mas em sua apresentação percebe-se o quanto as abelhas nativas são efetivas quando o assunto é polinização.

Apresentarei a seguir alguns dados e imagens extraídos da palestra do Dr. Décio Luiz Gazzoni, e a partir deles tirarei minhas próprias conclusões:

O primeiro dado interessante da palestra, para nós meliponicultores, é que se pensava que a soja não tivesse potencial melífero, pois não é citada entre as plantas boas para as abelhas. Inclusive a literatura indicava até a realização da pesquisa da EMBRAPA apenas 30 espécies de abelhas como visitantes das plantações de soja. Mas os pesquisadores da EMBRAPA descobriram que mais de 50 espécies de abelhas visitam a soja.

Concluímos a partir desse dado que pelo menos 49 espécies são nativas!   

Outro dado interessante que foi revelado é que as abelhas conseguem produzir quantidades significativas de mel a partir do néctar da soja, e que essa visitação acarreta até 41% de incremento na produtividade da soja.

Abro parênteses para explicar que a soja se auto poliniza, mas conforme explicação Dr. Gazzoni, existe uma “janela” temporal no ciclo da flor em que a atividade de abelhas sobre os estames consegue fertilizar mais um resquício que não é atingido pela autopolinização, acarretando mais alguns grãos em cada vagem a se formar.

A pesquisa traz dados que convencem os mais céticos quanto a diferença que esse “pequeno acréscimo” de grãos em cada vagem representa em uma plantação comercial de soja. Para isso Dr. Gazzoni apresenta inicialmente um gráfico de outra pesquisa, que lista a correspondência em US$ que cada produto agrícola gera na economia brasileira, com dados de 2020.

A tabela revela que a soja, que tem 25% de dependência da polinização, arrecadou aproximadamente 27 bilhões US$, sendo que quase 7 bilhões foram graças aos 25% de polinização efetivada por abelhas. Ou seja, 7 bilhões de US$ entraram em 2020 na balança comercial brasileira em troca de néctar.      

Outro dado interessante é que a produtividade por metro quadrado da soja  tem subido, mas o metro quadrado ocupado não acompanha o aumento da produtividade. E isso ocorre em parte devido a ação das abelhas nessa pequena “janela temporal” em que as flores da soja conseguem ser polinizadas por abelhas, proporcionando alguns poucos grãos a mais em cada vagem colhida. Projetando-se essa variante até 2050, calculam poder aumentar muito a produtividade e ao mesmo tempo poupar terra ocupada com a cultura. 

Dr. Gazzoni descreveu um experimento interessante sobre a influência da polinização no resultado de uma plantação de soja. Delimitou três áreas sob as mesmas condições, sendo que uma primeira área estava isolada da ação de polinizadores externos, a segunda área também estava isolada da ação de polinizadores externos, mas abrigava uma caixa de abelhas Apis melífera, e uma última área estava sem isolamento. 

Observou-se sob essas condições três safras seguidas de soja, concluindo-se que devido a ação das abelhas existentes no campo houve um pico de incremento de produção de 6,3% em relação ao perímetro de plantação isolado da influência de qualquer tipo de polinizador. E a área sob influência de um enxame apenas de Apis houve um pico de incremento de 18,2% na produção.

Considerando a percentagem média de influência nas três safras, de 12,9% devido a presença apenas das abelhas Apis, houve um incremento de 639Kg / ha, que nos valores de cotação de 2020 representa R$1768,00 a mais por hectare!

Como o Dr. Gazzoni faz questão de ressaltar em sua palestra, sem se gastar um real a mais com sementes, fertilizantes, pesticidas, máquinas ou outro custo!      

Em seguida foi apresentada outra pesquisa realizada em campos extensos de soja no Mato Grosso (Campo Novo do Parecis), que possibilitaram medir a distância de influência de abelhas de fragmentos florestais ao longo de um extenso campo de soja, e comparar com a influência da ação de abelhas Apis melífera.

Assim foi escolhido uma plantação homogênea de soja, com sementes de uma mesma variedade de soja, todas plantadas no mesmo dia, com tratamento de solo igual, exposta às mesmas condições climáticas, que apresentava um fragmento florestal centralizado que ocupava aproximadamente 10 hectares de área. 

Para um dos lados (esquerdo) do fragmento florestal foram distribuídas caixas (azul) de enxames de Apis, e esse talhão de plantação é de alta produtividade. Então esse talhão estava sob a influência tanto das caixas de Apis melífera, como das abelhas nativas provenientes do fragmento florestal. 

Para o outro lado do mesmo fragmento florestal (direita), não foram colocados os enxames de Apis, a influência era somente das abelhas nativas provenientes do mesmo fragmento florestal. E esse talhão de plantação era considerado um talhão de variedade de soja de média produtividade.    

E aí vem a cereja do bolo e a grande surpresa, que para a AME-RIO não é surpresa, pois há dez anos temos falado e demonstrado isso sistematicamente por meio de outras pesquisas apresentadas em nossos cursos de capacitação, palestras, apresentações, etc!

Os gráficos desse último experimento do Dr. Gazzoni mostram a quantidade de abelhas por área respectivamente em cada talhão: linha vermelha abelhas nativas, linha azul abelhas Apis, linha verde total geral de abelhas. 

Observa-se o ganho significativo de produtividade, que ocorreu nos dois talhões, até 100 metros de distância do fragmento florestal, atingindo picos de 4287kg/ha em um dos lados e 3316kg/ha no outro lado do fragmento florestal!  

E essa influência significativa até 100 metros de afastamento do fragmento florestal decai a partir dos 100 metros até 200 metros. A redução de produtividade coincide com o aumento da distância do fragmento florestal, e a consequente redução significativa de contagem das abelhas nativas por área. A partir dos 200 metros de distância, com o rareamento das abelhas nativas, a produtividade chega a cair 710kg/ha de um lado e 629kg/ha do outro lado do fragmento folrestal.

Interessante constatar que a presença das abelhas Apis melífera não sustenta o mesmo nível de eficiência de polinização suprido pela presença das abelhas nativas.


Nossas abelhas sem ferrão são fantásticas. Cada espécie de abelha melípona ao buscar o néctar ou pólen em uma flor, produz uma vibração característica no abdômen, que faz com que os estames das flores vibrem como uma corda de violão, e assim os grãozinhos de pólen voam longe fazendo a alegria das flores. Quem quiser se aprofundar sobre esse assunto basta procurar “Buzz Pollination” na internet, que existem vários trabalhos como por exemplo o “Buzz pollination: studying bee vibrations on flowers” de onde foi extraída a imagem a seguir.
   

A AME-RIO tem outras publicações comentando sobre essa capacidade de nossas abelhas, mas o que se deve destacar disso tudo é que no caso da soja a atuação de nossas abelhas nativas sobre a flor da soja é apenas complementar,  pois apesar da alta eficiência devido ao Buzz Vibration a soja se autopoliniza, assim como o café e diversas outras culturas comerciais.

 Mas é essencial que as pessoas compreendam que 90% das nossas plantas nativas, presentes em qualquer dos nossos 9 grandes biomas, a maioria delas só conseguem ser polinizadas se houver o Buzz Vibration produzido pelas abelhas endêmicas de seus respectivos biomas, pois cada espécie de planta evoluiu em simbiose com um grupo específico de abelhas, que são capazes de produzir a frequência certa para a liberação do pólen daquelas espécies de plantas.

Não é atoa que o Brasil tem quase 400 espécies de abelhas sem ferrão, sem contar as solitárias que exercem o mesmo papel!

Assim um bioma brasileiro, mesmo que preservado em sua área, precisa de abelhas nativas que produzam vibração correspondente a necessidade específica de polinização das espécies florais contidas naquele bioma. Se essas abelhas não estiverem presentes nesse bioma, ele estará fadado a extinção, pois suas plantas serão como múmias que não se reproduzem!

Outra conclusão que se obtém dessa pesquisa, e que a AME-RIO também vem batendo na tecla por muito tempo, é que não se deve projetar meliponários baseados em estatísticas de distâncias de alcance de vôo atingidos por cada espécie de abelha nativa. Abelha não desperdiça energia voando 1km, 2 km, 3 km de distância para trazer alimento para casa. Ela quer uma padaria na esquina, o supermercado no próximo quarteirão. Ela não vai gastar combustível para fazer compras em outro bairro!

Então quem quer produção respeite o limite do bom senso, e prepare um pasto melífero na borda do seu meliponário! E quem quiser um pomar farto, providencie caixas de abelhas sem ferrão espalhadas pela plantação!

As abelhas sem ferrão não só fazem o melhor e mais saboroso mel, mas também prepara as melhores frutas e e os maiores grãos de sua mesa! Então ...

Bon appétit, avec la petite abeille!   

Medina


terça-feira, 13 de junho de 2023

Dois dias mágicos para a Meliponicultura - JESUS SANTIAGO MOURE

O que podemos fazer com os nossos finais de semana? 

São dois dias para descansar do trabalho? Dormir até tarde? Passear? 

Jesus Santiago Moure usava os seus fins de semana fazendo prospecções de insetos, e criou um arcabouço sólido para a meliponicultura, sendo lembrado, citado e referenciado até hoje! Iniciou sua coleção de abelhas capturando os espécimes nos arredores do Seminário e nos jardins do Convento.

Durante mais de 65 anos, Padre Moure pesquisou as abelhas nativas do Brasil. É considerado um dos maiores taxonomistas do mundo em abelhas sem-ferrão da região neotropical. Descreveu cerca de 500 espécies e subespécies de abelhas e catalogou outras 12 mil.

Ele dizia: “A riqueza de nossa entomofauna é incrível. Pesquisas preliminares em regiões de florestas tropicais mostram que há um número impressionante de insetos desconhecidos... Continuamente encontramos espécies ainda não descritas, pois não há levantamento sistemático de nossa fauna e flora.”

A religião o fez mais curioso sobre a criação de Deus, e dedicou-se a ciência como um braço da religião: “A atitude que sempre tive em relação à natureza é a seguinte: descobrir como é que as coisas se fazem de acordo com a Lei de Deus. E a Lei de Deus é a Lei da evolução correndo no tempo.”

Padre Moure nasceu no dia 2 de novembro de 1912, em Ribeirão Preto, São Paulo, dois meses após a chegada de seus pais ao Brasil. O pai, engenheiro, deixou a região da Galícia, na Espanha fugindo da Guerra com Marrocos, para trabalhar na Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. 

Na infância, lembra como começou sua curiosidade: “O primeiro estímulo que recebi no campo das ciências naturais veio de um professor do grupo escolar, chamado pela meninada de Bigodinho de Arame. [...] ele nos levava ao bosque de Ribeirão Preto para colher flores, bichinhos, pedras, e nos dava muitas explicações. Era o melhor dia da semana.”

Em uma entrevista, foi questionado por José Wille

José Wille – Para a entomologia, uma coisa positiva do Brasil é a diversidade, considerada uma das maiores.

Padre Jesus Santiago Moure – Uma das maiores diversidades do mundo! Por exemplo, um estudo feito pelo dr. Carlos Alberto Seabra, do Rio de Janeiro, que é um médico, agora já com 81 anos: durante 50 anos, ele fez coletas regulares no Cristo do Corcovado, desde quando foi instalado lá. A fauna que ele obteve de um determinado grupo de animais, cortadores de madeira, ali em cima no Cristo, ali batendo no Cristo e caindo no chão, é maior que a fauna dos Estados Unidos e Canadá juntos.

Diante dessa lembrança curiosa sobre o efeito da luminosidade nos primeiros anos do Cristo Redentor no Corcovado, salientada por Padre Moure, eu fico pensando o quanto as luzes nas orlas marinhas atraem animais para as areias das praias, quanto material foi perdido, e tal qual no Corcovado, quanto desequilíbrio causou e ainda causa aos habitantes da noite marinha.

Moure é internacionalmente conhecido principalmente por causa da sua coleção biológica.

Aranda (2014) define coleção biológica como ‘um conjunto de organismos que são conservados fora de seu ambiente natural’ e para isso é necessário que seus componentes sejam preparados e organizados de modo a informar a procedência e identificação taxonômica de cada um dos espécimes, o que lhe confere status de coleção científica.

As coleções biológicas são um repositório de material biológico que dão suporte à pesquisa científica, ao ensino e à extensão, e permite ainda a comparação de toda e qualquer pesquisa realizada.

O Brasil ganhou a sua primeira coleção biológica em 1818, quando o imperador Dom João VI fundou a Casa dos Pássaros, instituição que deu origem ao Museu Nacional do Rio de Janeiro.

Em 1866 foram criadas as coleções do Museu Paraense Emílio Goeldi e em 1886 o Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. No decorrer do século XX outras instituições criaram coleções zoológicas regionais que passaram a formar uma rede com proporções e representatividade ainda mal estimadas. 

Algumas estimativas sugerem que existam cerca de 26 milhões de espécimes depositados em coleções brasileiras (ZAHER; YOUNG, 2003)

E a contribuição do Padre Moure para essas coleções é superlativa, principalmente sobre as abelhas sem ferrão. Seu fichário de 12 mil itens, datilografado, hoje serve de bíblia para entomólogos com um mínimo de juízo científico. Publicou 216 trabalhos e descreveu e propôs cerca de 500 nomes de abelhas – a primeira foi a Augochloropsis liopelte, em 1940. Ele é um dos três grandes nomes da Meliponicultura Brasileira

E para nós da AME-RIO não podemos deixar de lembrar sobre a Manduri Carioca, identificada por ele no Alto da Boa Vista na entrada da Floresta da Tijuca, PNT, Parque Nacional da Tijuca.

Não desperdicemos nossos preciosos momentos de lazer de modo vulgar, pois essas atividades mesmo que aparentemente simples e despretensiosas, podem representar uma diferença no futuro, seja de poucas pessoas, um grupo ou mesmo uma comunidade, como um efeito dominó transcendendo o tempo. E Padre Moure nos ensinou pelo exemplo que até uma diversão pode ser útil ao próximo, se bem direcionada!

Medina  






quinta-feira, 18 de maio de 2023

20 de MAIO. Chegamos nesse ano de 2023 a mais um dia oficial da abelha!

O dia foi instituído pela ONU em 2017 em homenagem a Anton Janša, nascido em 20 de maio de 1734 em Breznica, região Gorenjska da atual Eslovênia. Cresceu em uma família que possuía mais de cem colmeias, ele desenvolveu um fascínio especial pelas abelhas desde cedo. Por ser muito inventivo e observador, revolucionou a prática de criação de abelhas, ele inventou um novo design de colméia e aperfeiçoou as técnicas de produção do mel.

Maio, o mês, deriva do nome Maia, que tem o sentido literal de ‘pequena mãe, e na mitologia romana Maia Maiestas é a deusa da fecundidade e da projeção da energia vital, e da primavera.

E as abelhas podem ser consideradas como pequenas “mães”. Mães que dão o fruto a cada flor que pousa, trazendo a fecundidade e a energia vital para cada botão floral que visita.

E o Brasil é mais abençoado ainda por ser um berço esplendido para as abelhas nativas sem ferrão. Mais de 300 espécies ocupam os quatro cantos do nosso país.

Nossas abelhas nativas assemelham-se a varinhas de condão, transformando em uma explosão de vida até as flores mais independentes!

Um exemplo dessa mágica é o café. Estudos demonstram que apesar de ser uma planta independente de polinizador, devido a sua capacidade de autopolinização, a presença de abelhas nativas nas flores do cafezal, acarretam um incremento da produção de até 30% no arábica e até 60% no conilon (AgroBee). 

Existe uma outra pesquisa que registrou um aumento médio de 23% no peso do tomate cereja, quando polinizado por quadrifaciatas.

Pesquisas mais sérias catalogam a frequência de vibração do abdômen de nossas abelhas sem ferrão no momento da coleta de néctar no botão floral.

Sim cada uma das nossas abelhas nativas, diferentes das abelhas Apis Melífera, produzem uma vibração característica específica por espécie. Isso as tornam essenciais para o sucesso e eficiência na polinização de muitas espécies específicas da nossa flora nativa. Significa que se não houver uma abelha que atinja a vibração de uma frequência específica para uma determinada espécie floral, esse botão floral não será abençoado com a sucessão da vida.

Em outras espécies florais a vibração provocada pela abelha nativa, mesmo que não seja essencial para a sua fecundidade, transformam o momento da fecundação em uma explosão de vida, aumentando consideravelmente a qualidade, e o volume da produtividade daquela planta.

Uma outra pesquisa, da Dra. Kayna, apresenta um levantamento sobre a dependência de polinizadores na agricultura comercial. O gráfico revela que pelo menos 76% da cultura comercial é dependente de polinizadores. Desse total 35% são essencialmente dependentes, ou seja, se não houver polinizador não há produção. Outros 24% do total são altamente dependentes.

Esse estudo já é suficiente para entender a importância das abelhas no nosso cotidiano. Se acrescentássemos a esse cenário a mágica da multiplicação da produção, que nossas abelhas nativas são capazes de implementar na maioria das plantações comerciais, as abelhas nativas deveriam não só ser comemoradas no dia 20 de MAIO, mas a cada dia do ano nas salas de aulas de nossas crianças, para que todas crescessem reconhecendo o quanto importantes nossas abelhas nativas são para nosso dia a dia, incrementando a produção de alimentos, como para nossos 9 grandes biomas nacionais.

E essa terra santa, assim como em Mateus 14:13-21, é berço de mais um milagre: o milagre da multiplicação dos frutos. Parece que nossas abelhas aprenderam a lição da multiplicação e da partilha de Jesus. Sem nem mais uma grama de adubo sobre a terra, sem a necessidade de mais metros quadrados de terras cultivadas, sem mais empenho do agricultor, nossas abelhas nativas não só mantêm nossos biomas vivos, como também multiplicam a produtividade das plantas que nessa terra chegam para alimentar o homem.

Nossas abelhas sem ferrão são as “pequenas mães indígenas”, hoje ainda pouco valorizadas, ou ainda não devidamente “empoderadas”, para usar um jargão da moda. Que cada dia 20 dos maios que ainda virão, possam ser momentos de despertamento para a verdadeira importância das abelhas nativas.

Viva todas as abelhas! E viva nossas abelhas nativas!

Medina