Em 2009 a AME-RIO realizou o
primeiro concurso Nacional de méis de abelhas sem ferrão alçando os
meliponicultores e as abelhas nativas sem ferrão a um novo patamar. O então presidente
Pedro Paulo Peixoto estabeleceu parâmetros de classificação dos méis junto a
grandes nomes da época. Naquele tempo o mel era associado somente à doçura e
medicina. Visionário e criterioso montou um curso de degustadores, de modo a treinar
paladares capazes de reconhecer os sabores singulares das nossas abelhas
nativas: acidez, aromas, notas diferenciadas. Empenhou-se tanto a essa meta que
também realizava mensalmente degustações entre todos os associados, e até mini
concursos, ao ponto de a grande maioria dos associados conseguir distinguir a
espécie de abelha que originava cada amostra.
Passado o bastão da organização,
ao longo dessas oito últimas edições do Concurso Nacional eu, o prof. Rogério
Alves e Eugenio Mbee temos alterado gradativamente as regras do concurso em
função da resposta que a sociedade vem apresentando ao conhecer e experimentar
os diferenciados sabores dos méis das abelhas nativas sem ferrão.
Quanto aos parâmetros de
julgamento, já tivemos cinco ou até seis. Incluíamos cor, brilho, densidade. A
experiência das diversas edições associada à comprovação científica demonstraram
que cor, densidade e brilho no universo das abelhas nativas sem ferrão não se
relacionam à capacidade da amostra provocar uma melhor ou pior experiência
gustativa.
Avaliamos a possibilidade de
considerar notas gustativas também como um parâmetro para classificação, mas
concluímos que são impressões muito particulares de cada amostra de mel, sem
muita possibilidade de repetitividade, pois dentro de uma única caixa de abelha
pode-se achar grupos de potes de mel com notas gustativas completamente
diferentes.
Então saber se amostra de mel era
de caixa única ou da mistura de várias caixas foi um dado importante que
anotávamos, pois dava ideia se a amostra representava a região como um todo ou apenas
um grupo floral reduzido. Em todas as cédulas de votação os jurados anotavam
suas impressões sobre as notas gustativas, e só passávamos para os próprios
meliponicultores, quando percebíamos a possibilidade de ter uma amostra de
múltiplas caixas com aptidão de representar um mel terroir da região, o que poderia
abrir caminhos, por exemplo, para o pedido de uma Indicação Geográfica.
Então fomos evoluindo e
divulgando ideias, experiências e técnicas. O número de amostras continuou crescendo
não só em quantidade, mas também em variabilidade de espécies de abelhas.
Nos primeiros concursos os méis
das diversas uruçus, mandaçaias, jataís, manduris, etc, todos causavam impacto
aos novatos nesse mundo das abelhas nativas. Todos são méis de personalidades
gustativas particulares frente aos tradicionais méis de Apis Melífera. Chefs de
cozinha se apaixonaram por essa nova paleta de sabores, não só dos méis como
dos saburás desidratados. A internet facilitou a disseminação, os criadores se
multiplicaram rapidamente, e cada vez mais têm surgido amostras de méis muito
especiais.
Ao longo dessas oito edições de
concurso, a Mbee se juntou a nós como parceiro e por meio dela conseguimos dar
a justa visibilidade que esses méis mereciam junto ao mercado, especialmente
frente a um público muito exigente por qualidade. Vários participantes tiveram
seus méis acrescidos dentre o portfólio da Mbee, e reconhecidos passaram a ter
uma nova perspectiva de mercado. Não só puros, mas também combinados às
receitas de panetones, cervejas e espumantes. A Academia do Mel estabeleceu
imersão sensorial anual voltada para a valorização da biodiversidade de abelhas
nativas sem ferrão, dos méis brasileiros e seus produtores.
Dra Mônica Barth e Prof. Rogerio
Alves, pioneiros na parceria, vêm nos dando sempre apoio científico e por meio
do conhecimento e trabalho deles pudemos repassar informações valiosas aos
criadores. Diversas porções de amostras fizeram parte de pesquisas científicas
na área de fármacos da UFRJ por meio do Prof. Igor e sua equipe. Outros
pesquisadores também conseguiram somar nesses anos de convivência. Enfim, foram
anos de trocas de informações que trouxeram benefícios aos envolvidos nessa
corrente de aprendizado.
O Concurso Nacional de Méis de
abelhas sem ferrão AME-RIO atingiu seus objetivos primordiais: Disseminamos
entre a população a informação de que existem méis diferentes além dos
conhecidos méis de Apis melífera, introduzimos e popularizamos um universo de
sabores de méis produzidos por abelhas nativas a partir de plantas nativas,
incentivamos uma nova cadeia produtiva, jogamos luz a um produto que circulava
somente na tradição quase perdida da nossa gente da terra.
É uma emoção acompanhar a
evolução da visibilidade de participantes do Concurso Nacional, como Kalhil de
Mossoró que mostrou a potência produtora das Jandaíras, o Yuri do “Nativas do
Pará” que apostou que os méis das nativas poderiam receber um empreendimento em
grande escala, mulheres guerreiras como Jeicy Ramos do Pará, Maria Paulino
produtora rural do Acre, Aldenora do Amazonas que possuíam suas caixas apenas
como um recurso secundário mas que depois de serem premiadas tiveram seus
trabalhos reconhecidos, o Guerreiro de Boa Vista do Ramos que contribuiu para alçar
os méis da sua comunidade a um ativo social/econômico como a primeira Indicação
Geográfica exclusivamente de produto meliponini reconhecida pelo INPI, esses e
muitos outros exemplos variados conseguiram de alguma forma dar um valor
especial aos seus méis depois de participarem do Concurso Nacional AME-RIO.
Esse ano a AME-RIO está inovando mais
uma vez. Percebemos a formação de correntes diferentes de degustadores de méis
de abelhas nativas. Existe uma grande massa de degustadores que se encantam com
os sabores diferenciados e diversidade de sensações organolépticas
proporcionadas pelos méis de abelhas sem ferrão. Do mesmo modo dos apreciadores
de um bom vinho, conseguem ver nesses méis um produto especial, e realmente são.
Pois pode-se dizer que são méis brasileiros, produzidos por abelhas nativas a
partir de uma flora nativa. São méis que conquistaram seu reconhecimento público
e estabeleceram seus valores diferenciados. A esses passamos a categorizar como
“típicos”. E o primeiro colocado nessa nova categoria ganhará o “TROFÉU MEL
DESTAQUE”.
Mas uma nova vertente de
apreciadores está buscando e descobrindo em alguns méis notas particulares, e
até capacidades específicas, como a de transmutar sabores quando combinados com
outras iguarias. Transformam a degustação de uma carne, de um cogumelo ou de um
queijo. Geralmente méis de espécies de abelhas de difícil manejo, raras ou de
baixíssima produção.
Esses méis apesar de terem uma
personalidade forte quando degustados sozinhos, ocultam seus talentos de
transmutação, e pouquíssimas pessoas são capazes de reconhecê-los dentre os
demais, pois se escondem até mesmo dos paladares mais treinados em reconhecer a
maioria das notas gustativas. No entanto, quando combinados com a iguaria
correta, tcham tcham tcham, agem e o resultado é surpreendente. O jurado
precisa ser perspicaz para ler a alma desses méis, pois em uma degustação
isolada podem receber notas baixas se comparados com outros. A esses passamos a
categorizar como méis “atípicos”. E o primeiro colocado nessa nova categoria
ganhará o “TROFÉU MEL DISTINTO”.
Esperamos assim apontar mais um
caminho a ser trilhado, em que possamos não gerar injustiças e reconhecer que a
diversidade dos produtos meliponínis nos convidam a sair das caixinhas
tradicionais, as quais podem limitar nossas atividades a adaptações de técnicas
conhecidas.



