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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

BREVE HISTÓRIA DO CONCURSO NACIONAL DE ABELHAS SEM FERRÃO - AME-RIO

 

Em 2009 a AME-RIO realizou o primeiro concurso Nacional de méis de abelhas sem ferrão alçando os meliponicultores e as abelhas nativas sem ferrão a um novo patamar. O então presidente Pedro Paulo Peixoto estabeleceu parâmetros de classificação dos méis junto a grandes nomes da época. Naquele tempo o mel era associado somente à doçura e medicina. Visionário e criterioso montou um curso de degustadores, de modo a treinar paladares capazes de reconhecer os sabores singulares das nossas abelhas nativas: acidez, aromas, notas diferenciadas. Empenhou-se tanto a essa meta que também realizava mensalmente degustações entre todos os associados, e até mini concursos, ao ponto de a grande maioria dos associados conseguir distinguir a espécie de abelha que originava cada amostra.

Passado o bastão da organização, ao longo dessas oito últimas edições do Concurso Nacional eu, o prof. Rogério Alves e Eugenio Mbee temos alterado gradativamente as regras do concurso em função da resposta que a sociedade vem apresentando ao conhecer e experimentar os diferenciados sabores dos méis das abelhas nativas sem ferrão.

Antes separávamos as amostras por tipo de conservação: desumidificado, maturado, congelado, refrigerado.  Mas os próprios criadores foram se especializando ao ponto de combinar maturação com desumidificação obtendo tempo de prateleira associado ao “uau!” do paladar que só o mel refrigerado proporcionava. Atualmente não fazemos mais essas distinções.

Quanto aos parâmetros de julgamento, já tivemos cinco ou até seis. Incluíamos cor, brilho, densidade. A experiência das diversas edições associada à comprovação científica demonstraram que cor, densidade e brilho no universo das abelhas nativas sem ferrão não se relacionam à capacidade da amostra provocar uma melhor ou pior experiência gustativa.

Avaliamos a possibilidade de considerar notas gustativas também como um parâmetro para classificação, mas concluímos que são impressões muito particulares de cada amostra de mel, sem muita possibilidade de repetitividade, pois dentro de uma única caixa de abelha pode-se achar grupos de potes de mel com notas gustativas completamente diferentes.

Então saber se amostra de mel era de caixa única ou da mistura de várias caixas foi um dado importante que anotávamos, pois dava ideia se a amostra representava a região como um todo ou apenas um grupo floral reduzido. Em todas as cédulas de votação os jurados anotavam suas impressões sobre as notas gustativas, e só passávamos para os próprios meliponicultores, quando percebíamos a possibilidade de ter uma amostra de múltiplas caixas com aptidão de representar um mel terroir da região, o que poderia abrir caminhos, por exemplo, para o pedido de uma Indicação Geográfica.

Então fomos evoluindo e divulgando ideias, experiências e técnicas. O número de amostras continuou crescendo não só em quantidade, mas também em variabilidade de espécies de abelhas.

Nos primeiros concursos os méis das diversas uruçus, mandaçaias, jataís, manduris, etc, todos causavam impacto aos novatos nesse mundo das abelhas nativas. Todos são méis de personalidades gustativas particulares frente aos tradicionais méis de Apis Melífera. Chefs de cozinha se apaixonaram por essa nova paleta de sabores, não só dos méis como dos saburás desidratados. A internet facilitou a disseminação, os criadores se multiplicaram rapidamente, e cada vez mais têm surgido amostras de méis muito especiais.

Ao longo dessas oito edições de concurso, a Mbee se juntou a nós como parceiro e por meio dela conseguimos dar a justa visibilidade que esses méis mereciam junto ao mercado, especialmente frente a um público muito exigente por qualidade. Vários participantes tiveram seus méis acrescidos dentre o portfólio da Mbee, e reconhecidos passaram a ter uma nova perspectiva de mercado. Não só puros, mas também combinados às receitas de panetones, cervejas e espumantes. A Academia do Mel estabeleceu imersão sensorial anual voltada para a valorização da biodiversidade de abelhas nativas sem ferrão, dos méis brasileiros e seus produtores.

Dra Mônica Barth e Prof. Rogerio Alves, pioneiros na parceria, vêm nos dando sempre apoio científico e por meio do conhecimento e trabalho deles pudemos repassar informações valiosas aos criadores. Diversas porções de amostras fizeram parte de pesquisas científicas na área de fármacos da UFRJ por meio do Prof. Igor e sua equipe. Outros pesquisadores também conseguiram somar nesses anos de convivência. Enfim, foram anos de trocas de informações que trouxeram benefícios aos envolvidos nessa corrente de aprendizado.

O Concurso Nacional de Méis de abelhas sem ferrão AME-RIO atingiu seus objetivos primordiais: Disseminamos entre a população a informação de que existem méis diferentes além dos conhecidos méis de Apis melífera, introduzimos e popularizamos um universo de sabores de méis produzidos por abelhas nativas a partir de plantas nativas, incentivamos uma nova cadeia produtiva, jogamos luz a um produto que circulava somente na tradição quase perdida da nossa gente da terra.

É uma emoção acompanhar a evolução da visibilidade de participantes do Concurso Nacional, como Kalhil de Mossoró que mostrou a potência produtora das Jandaíras, o Yuri do “Nativas do Pará” que apostou que os méis das nativas poderiam receber um empreendimento em grande escala, mulheres guerreiras como Jeicy Ramos do Pará, Maria Paulino produtora rural do Acre, Aldenora do Amazonas que possuíam suas caixas apenas como um recurso secundário mas que depois de serem premiadas tiveram seus trabalhos reconhecidos, o Guerreiro de Boa Vista do Ramos que contribuiu para alçar os méis da sua comunidade a um ativo social/econômico como a primeira Indicação Geográfica exclusivamente de produto meliponini reconhecida pelo INPI, esses e muitos outros exemplos variados conseguiram de alguma forma dar um valor especial aos seus méis depois de participarem do Concurso Nacional AME-RIO.

Nessa caminhada percebemos que os méis das uruçus, mandaçaias, jataís, manduris, etc conquistaram um lugar de destaque e um reconhecimento cada vez maior pelo público em geral. Do mais leigo ao mais exigente paladar. Entretanto no cenário atual, com o aumento da variabilidade de amostras, especialmente na última edição, também entendemos que se continuássemos a categorizar da mesma forma estaríamos cometendo injustiças.

Esse ano a AME-RIO está inovando mais uma vez. Percebemos a formação de correntes diferentes de degustadores de méis de abelhas nativas. Existe uma grande massa de degustadores que se encantam com os sabores diferenciados e diversidade de sensações organolépticas proporcionadas pelos méis de abelhas sem ferrão. Do mesmo modo dos apreciadores de um bom vinho, conseguem ver nesses méis um produto especial, e realmente são. Pois pode-se dizer que são méis brasileiros, produzidos por abelhas nativas a partir de uma flora nativa. São méis que conquistaram seu reconhecimento público e estabeleceram seus valores diferenciados. A esses passamos a categorizar como “típicos”. E o primeiro colocado nessa nova categoria ganhará o “TROFÉU MEL DESTAQUE”.

Mas uma nova vertente de apreciadores está buscando e descobrindo em alguns méis notas particulares, e até capacidades específicas, como a de transmutar sabores quando combinados com outras iguarias. Transformam a degustação de uma carne, de um cogumelo ou de um queijo. Geralmente méis de espécies de abelhas de difícil manejo, raras ou de baixíssima produção.

Esses méis apesar de terem uma personalidade forte quando degustados sozinhos, ocultam seus talentos de transmutação, e pouquíssimas pessoas são capazes de reconhecê-los dentre os demais, pois se escondem até mesmo dos paladares mais treinados em reconhecer a maioria das notas gustativas. No entanto, quando combinados com a iguaria correta, tcham tcham tcham, agem e o resultado é surpreendente. O jurado precisa ser perspicaz para ler a alma desses méis, pois em uma degustação isolada podem receber notas baixas se comparados com outros. A esses passamos a categorizar como méis “atípicos”. E o primeiro colocado nessa nova categoria ganhará o “TROFÉU MEL DISTINTO”.


Essa nova categoria visa à tentativa de dar maior reconhecimento e incentivos aos criadores de abelhas que fornecem méis que apresentam sensações organolépticas inusitadas e extravagantes, e que se afastam dos parâmetros típicos de sabores esperados, mesmo para os apreciadores de méis de abelhas sem ferrão. São para um tipo de mel que tem tido um aumento em suas inscrições nas disputas, mas que geralmente não tem escala de produção em termos comerciais, e que na edição anterior do Concurso Nacional de Méis de Abelhas Sem Ferrão, por suas características diferenciadas receberam Menções Honrosas de participação.

Esperamos assim apontar mais um caminho a ser trilhado, em que possamos não gerar injustiças e reconhecer que a diversidade dos produtos meliponínis nos convidam a sair das caixinhas tradicionais, as quais podem limitar nossas atividades a adaptações de técnicas conhecidas.