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sexta-feira, 16 de junho de 2023

O Valor das Abelhas Sem Ferrão

A abelha sem ferrão tem vivido ciclos de visibilidade em sua própria terra. Antes de 2000, e do advento das redes sociais, sabiam sobre sua existência somente do cerrado para cima, principalmente todas as regiões norte e nordeste. Conhecimento comum de caboclos, índios, ribeirinhos, sertanejos, matutos e povo circunvizinhos. O seu mel fartamente consumido e admirado por todos. Suas propriedades medicinais valorizadas. Sua proximidade nas lavouras pomares, sempre bem quista. Sua existência é tão normal como cachorros e gatos no quintal!

Na primeira década do século XXI ainda era uma desconhecida dos brasileiros do meridiano 16º S para baixo. As academias diplomavam neófitos que sequer sabiam que abelhas poderiam não ter ferrão. Escolas ensinam as crianças que abelhas Apis melíferas são as polinizadoras de nossas matas nativas. Nos livros didáticos e notícias só figuram as abelhas exóticas.

 A partir dessa época a tecnologia digital abriu espaço para a formação de grupos e forums de pessoas por assuntos de interesse, e assim juntaram-se alguns gatos pingados que de alguma forma conheciam as abelhas nativas: seja por herança cultural, ou viagens para cima do meridiano 16ºS. Período em que foi criado o grupo ABENA no “Yahoo Groups”, e que a AME-RIO foi fundada (2007). 

Apesar das abelhas sem ferrão sempre existirem em todo território brasileiro, foi a partir dessa época que ela passou a ser conhecida nas regiões mais “ricas” do país. Teve matéria até na Forbes! Um novo ciclo de reconhecimento a nível nacional se inicia para as abelhas nativas. Como não poderia deixar de acontecer, o mel maravilhoso produzido pelas nativas despertou interesse geral. São como uma carta de vinhos nobres, e diferenciados a cada safra. Sabores mais complexos foram descobertos pelos Chefs da alta gastronomia, tanto no mel como em seu pólen. 

As abelhas sem ferrão ganharam força e status com as novas redes sociais, mais rápidas e penetrantes, que disseminam a sua existência aos sete ventos na velocidade de um raio. Assim um outro ciclo ganhou espaço, e agora são incontáveis as inserções sobre o assunto em variadas programações televisivas. Escolas primárias ou levam alunos em meliponários públicos, ou criam meliponários em seus próprios pátios recreativos. Na academia cresce a quantidade de pesquisadores interessados em aprofundar o conhecimento sobre elas e seus produtos. Políticos começam a legislar sobre a atividade. Uma onda de associações de meliponicultores cobre os estados federativos. 


A visibilidade aumenta assustadoramente e inicia-se uma elitização dos produtos, bem como muita informação desencontrada, ou mal direcionada.
A AME-RIO participou e influenciou em muitos desses ciclos e procurou atuar em suas consequências. Temos incentivado algumas consideradas positivas, e  combatendo outras que achamos perniciosas.
Mas ainda estamos batendo em uma tecla pouco conhecida: o alto nível de eficiência da polinização provocada pelas abelhas sem ferrão. Apostamos que esse será o próximo ciclo de reconhecimento sobre as nossas nativas. E por isso, que por dez anos, temos mantido um capítulo especial em nossos cursos de capacitação, e temos dedicado tempo e esforço semeando a informação em palestras, workshop, folders de divulgação, no nosso Gibi infantil, ou em qualquer outra oportunidade de comunicação.
E sobre esse assunto, me chamou a atenção uma palestra que ouvi do Dr. Décio Luiz Gazzoni, engenheiro agrônomo M.Sc. em entomologia, pesquisador da Embrapa Soja Londrina. Nessa palestra ele fala sobre a importância da polinização das abelhas em uma plantação comercial de soja. Seu foco não são as abelhas nativas, mas em sua apresentação percebe-se o quanto as abelhas nativas são efetivas quando o assunto é polinização.

Apresentarei a seguir alguns dados e imagens extraídos da palestra do Dr. Décio Luiz Gazzoni, e a partir deles tirarei minhas próprias conclusões:

O primeiro dado interessante da palestra, para nós meliponicultores, é que se pensava que a soja não tivesse potencial melífero, pois não é citada entre as plantas boas para as abelhas. Inclusive a literatura indicava até a realização da pesquisa da EMBRAPA apenas 30 espécies de abelhas como visitantes das plantações de soja. Mas os pesquisadores da EMBRAPA descobriram que mais de 50 espécies de abelhas visitam a soja.

Concluímos a partir desse dado que pelo menos 49 espécies são nativas!   

Outro dado interessante que foi revelado é que as abelhas conseguem produzir quantidades significativas de mel a partir do néctar da soja, e que essa visitação acarreta até 41% de incremento na produtividade da soja.

Abro parênteses para explicar que a soja se auto poliniza, mas conforme explicação Dr. Gazzoni, existe uma “janela” temporal no ciclo da flor em que a atividade de abelhas sobre os estames consegue fertilizar mais um resquício que não é atingido pela autopolinização, acarretando mais alguns grãos em cada vagem a se formar.

A pesquisa traz dados que convencem os mais céticos quanto a diferença que esse “pequeno acréscimo” de grãos em cada vagem representa em uma plantação comercial de soja. Para isso Dr. Gazzoni apresenta inicialmente um gráfico de outra pesquisa, que lista a correspondência em US$ que cada produto agrícola gera na economia brasileira, com dados de 2020.

A tabela revela que a soja, que tem 25% de dependência da polinização, arrecadou aproximadamente 27 bilhões US$, sendo que quase 7 bilhões foram graças aos 25% de polinização efetivada por abelhas. Ou seja, 7 bilhões de US$ entraram em 2020 na balança comercial brasileira em troca de néctar.      

Outro dado interessante é que a produtividade por metro quadrado da soja  tem subido, mas o metro quadrado ocupado não acompanha o aumento da produtividade. E isso ocorre em parte devido a ação das abelhas nessa pequena “janela temporal” em que as flores da soja conseguem ser polinizadas por abelhas, proporcionando alguns poucos grãos a mais em cada vagem colhida. Projetando-se essa variante até 2050, calculam poder aumentar muito a produtividade e ao mesmo tempo poupar terra ocupada com a cultura. 

Dr. Gazzoni descreveu um experimento interessante sobre a influência da polinização no resultado de uma plantação de soja. Delimitou três áreas sob as mesmas condições, sendo que uma primeira área estava isolada da ação de polinizadores externos, a segunda área também estava isolada da ação de polinizadores externos, mas abrigava uma caixa de abelhas Apis melífera, e uma última área estava sem isolamento. 

Observou-se sob essas condições três safras seguidas de soja, concluindo-se que devido a ação das abelhas existentes no campo houve um pico de incremento de produção de 6,3% em relação ao perímetro de plantação isolado da influência de qualquer tipo de polinizador. E a área sob influência de um enxame apenas de Apis houve um pico de incremento de 18,2% na produção.

Considerando a percentagem média de influência nas três safras, de 12,9% devido a presença apenas das abelhas Apis, houve um incremento de 639Kg / ha, que nos valores de cotação de 2020 representa R$1768,00 a mais por hectare!

Como o Dr. Gazzoni faz questão de ressaltar em sua palestra, sem se gastar um real a mais com sementes, fertilizantes, pesticidas, máquinas ou outro custo!      

Em seguida foi apresentada outra pesquisa realizada em campos extensos de soja no Mato Grosso (Campo Novo do Parecis), que possibilitaram medir a distância de influência de abelhas de fragmentos florestais ao longo de um extenso campo de soja, e comparar com a influência da ação de abelhas Apis melífera.

Assim foi escolhido uma plantação homogênea de soja, com sementes de uma mesma variedade de soja, todas plantadas no mesmo dia, com tratamento de solo igual, exposta às mesmas condições climáticas, que apresentava um fragmento florestal centralizado que ocupava aproximadamente 10 hectares de área. 

Para um dos lados (esquerdo) do fragmento florestal foram distribuídas caixas (azul) de enxames de Apis, e esse talhão de plantação é de alta produtividade. Então esse talhão estava sob a influência tanto das caixas de Apis melífera, como das abelhas nativas provenientes do fragmento florestal. 

Para o outro lado do mesmo fragmento florestal (direita), não foram colocados os enxames de Apis, a influência era somente das abelhas nativas provenientes do mesmo fragmento florestal. E esse talhão de plantação era considerado um talhão de variedade de soja de média produtividade.    

E aí vem a cereja do bolo e a grande surpresa, que para a AME-RIO não é surpresa, pois há dez anos temos falado e demonstrado isso sistematicamente por meio de outras pesquisas apresentadas em nossos cursos de capacitação, palestras, apresentações, etc!

Os gráficos desse último experimento do Dr. Gazzoni mostram a quantidade de abelhas por área respectivamente em cada talhão: linha vermelha abelhas nativas, linha azul abelhas Apis, linha verde total geral de abelhas. 

Observa-se o ganho significativo de produtividade, que ocorreu nos dois talhões, até 100 metros de distância do fragmento florestal, atingindo picos de 4287kg/ha em um dos lados e 3316kg/ha no outro lado do fragmento florestal!  

E essa influência significativa até 100 metros de afastamento do fragmento florestal decai a partir dos 100 metros até 200 metros. A redução de produtividade coincide com o aumento da distância do fragmento florestal, e a consequente redução significativa de contagem das abelhas nativas por área. A partir dos 200 metros de distância, com o rareamento das abelhas nativas, a produtividade chega a cair 710kg/ha de um lado e 629kg/ha do outro lado do fragmento folrestal.

Interessante constatar que a presença das abelhas Apis melífera não sustenta o mesmo nível de eficiência de polinização suprido pela presença das abelhas nativas.


Nossas abelhas sem ferrão são fantásticas. Cada espécie de abelha melípona ao buscar o néctar ou pólen em uma flor, produz uma vibração característica no abdômen, que faz com que os estames das flores vibrem como uma corda de violão, e assim os grãozinhos de pólen voam longe fazendo a alegria das flores. Quem quiser se aprofundar sobre esse assunto basta procurar “Buzz Pollination” na internet, que existem vários trabalhos como por exemplo o “Buzz pollination: studying bee vibrations on flowers” de onde foi extraída a imagem a seguir.
   

A AME-RIO tem outras publicações comentando sobre essa capacidade de nossas abelhas, mas o que se deve destacar disso tudo é que no caso da soja a atuação de nossas abelhas nativas sobre a flor da soja é apenas complementar,  pois apesar da alta eficiência devido ao Buzz Vibration a soja se autopoliniza, assim como o café e diversas outras culturas comerciais.

 Mas é essencial que as pessoas compreendam que 90% das nossas plantas nativas, presentes em qualquer dos nossos 9 grandes biomas, a maioria delas só conseguem ser polinizadas se houver o Buzz Vibration produzido pelas abelhas endêmicas de seus respectivos biomas, pois cada espécie de planta evoluiu em simbiose com um grupo específico de abelhas, que são capazes de produzir a frequência certa para a liberação do pólen daquelas espécies de plantas.

Não é atoa que o Brasil tem quase 400 espécies de abelhas sem ferrão, sem contar as solitárias que exercem o mesmo papel!

Assim um bioma brasileiro, mesmo que preservado em sua área, precisa de abelhas nativas que produzam vibração correspondente a necessidade específica de polinização das espécies florais contidas naquele bioma. Se essas abelhas não estiverem presentes nesse bioma, ele estará fadado a extinção, pois suas plantas serão como múmias que não se reproduzem!

Outra conclusão que se obtém dessa pesquisa, e que a AME-RIO também vem batendo na tecla por muito tempo, é que não se deve projetar meliponários baseados em estatísticas de distâncias de alcance de vôo atingidos por cada espécie de abelha nativa. Abelha não desperdiça energia voando 1km, 2 km, 3 km de distância para trazer alimento para casa. Ela quer uma padaria na esquina, o supermercado no próximo quarteirão. Ela não vai gastar combustível para fazer compras em outro bairro!

Então quem quer produção respeite o limite do bom senso, e prepare um pasto melífero na borda do seu meliponário! E quem quiser um pomar farto, providencie caixas de abelhas sem ferrão espalhadas pela plantação!

As abelhas sem ferrão não só fazem o melhor e mais saboroso mel, mas também prepara as melhores frutas e e os maiores grãos de sua mesa! Então ...

Bon appétit, avec la petite abeille!   

Medina


quinta-feira, 18 de maio de 2023

20 de MAIO. Chegamos nesse ano de 2023 a mais um dia oficial da abelha!

O dia foi instituído pela ONU em 2017 em homenagem a Anton Janša, nascido em 20 de maio de 1734 em Breznica, região Gorenjska da atual Eslovênia. Cresceu em uma família que possuía mais de cem colmeias, ele desenvolveu um fascínio especial pelas abelhas desde cedo. Por ser muito inventivo e observador, revolucionou a prática de criação de abelhas, ele inventou um novo design de colméia e aperfeiçoou as técnicas de produção do mel.

Maio, o mês, deriva do nome Maia, que tem o sentido literal de ‘pequena mãe, e na mitologia romana Maia Maiestas é a deusa da fecundidade e da projeção da energia vital, e da primavera.

E as abelhas podem ser consideradas como pequenas “mães”. Mães que dão o fruto a cada flor que pousa, trazendo a fecundidade e a energia vital para cada botão floral que visita.

E o Brasil é mais abençoado ainda por ser um berço esplendido para as abelhas nativas sem ferrão. Mais de 300 espécies ocupam os quatro cantos do nosso país.

Nossas abelhas nativas assemelham-se a varinhas de condão, transformando em uma explosão de vida até as flores mais independentes!

Um exemplo dessa mágica é o café. Estudos demonstram que apesar de ser uma planta independente de polinizador, devido a sua capacidade de autopolinização, a presença de abelhas nativas nas flores do cafezal, acarretam um incremento da produção de até 30% no arábica e até 60% no conilon (AgroBee). 

Existe uma outra pesquisa que registrou um aumento médio de 23% no peso do tomate cereja, quando polinizado por quadrifaciatas.

Pesquisas mais sérias catalogam a frequência de vibração do abdômen de nossas abelhas sem ferrão no momento da coleta de néctar no botão floral.

Sim cada uma das nossas abelhas nativas, diferentes das abelhas Apis Melífera, produzem uma vibração característica específica por espécie. Isso as tornam essenciais para o sucesso e eficiência na polinização de muitas espécies específicas da nossa flora nativa. Significa que se não houver uma abelha que atinja a vibração de uma frequência específica para uma determinada espécie floral, esse botão floral não será abençoado com a sucessão da vida.

Em outras espécies florais a vibração provocada pela abelha nativa, mesmo que não seja essencial para a sua fecundidade, transformam o momento da fecundação em uma explosão de vida, aumentando consideravelmente a qualidade, e o volume da produtividade daquela planta.

Uma outra pesquisa, da Dra. Kayna, apresenta um levantamento sobre a dependência de polinizadores na agricultura comercial. O gráfico revela que pelo menos 76% da cultura comercial é dependente de polinizadores. Desse total 35% são essencialmente dependentes, ou seja, se não houver polinizador não há produção. Outros 24% do total são altamente dependentes.

Esse estudo já é suficiente para entender a importância das abelhas no nosso cotidiano. Se acrescentássemos a esse cenário a mágica da multiplicação da produção, que nossas abelhas nativas são capazes de implementar na maioria das plantações comerciais, as abelhas nativas deveriam não só ser comemoradas no dia 20 de MAIO, mas a cada dia do ano nas salas de aulas de nossas crianças, para que todas crescessem reconhecendo o quanto importantes nossas abelhas nativas são para nosso dia a dia, incrementando a produção de alimentos, como para nossos 9 grandes biomas nacionais.

E essa terra santa, assim como em Mateus 14:13-21, é berço de mais um milagre: o milagre da multiplicação dos frutos. Parece que nossas abelhas aprenderam a lição da multiplicação e da partilha de Jesus. Sem nem mais uma grama de adubo sobre a terra, sem a necessidade de mais metros quadrados de terras cultivadas, sem mais empenho do agricultor, nossas abelhas nativas não só mantêm nossos biomas vivos, como também multiplicam a produtividade das plantas que nessa terra chegam para alimentar o homem.

Nossas abelhas sem ferrão são as “pequenas mães indígenas”, hoje ainda pouco valorizadas, ou ainda não devidamente “empoderadas”, para usar um jargão da moda. Que cada dia 20 dos maios que ainda virão, possam ser momentos de despertamento para a verdadeira importância das abelhas nativas.

Viva todas as abelhas! E viva nossas abelhas nativas!

Medina   

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Comunidade conhece importância das abelhas sem ferrão


Reproduzo abaixo uma matéria de Gabriela Malta, em que discorre sobre trabalho de conscientização da importância das abelhas sem ferrão feito pela USP. Em evento voltado para o público, Vanderson Cristiano de Sousa mestrando pelo Instituto de Biociências da USP, apresenta as abelhas e ainda faz um tour com as pessoas pelos jardins do Instituto.
Fica aqui registrado essa iniciativa, em que a USP vem juntar forças à luta travada pelos meliponicultores pelo reconhecimento inegável da importância das abelhas nativas para a sustentabilidade do que resta de nossas matas.
MEDINA

Comunidade conhece importância das abelhas sem ferrão no CienTec

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Cerca de 90% das espécies de árvores da Mata Atlântica dependem das abelhas nativas sem ferrão para que possam se reproduzir. Isso porque são elas que realizam a polinização, levando o pólen de uma flor para outra e permitindo, assim, a fecundação e produção da semente.
Com o objetivo de apresentar essa importante espécie de inseto ao público, o Parque CienTec da USP recebeu no último sábado, dia 9, a palestra Abelhas Sem-Ferrão no dia-a-dia: uma visita aos seus ninhos. “Mesmo as espécies que não são efetivas na polinização têm um efeito naquelas que são, quando cruzam sua rota e as obrigam a mudar de caminho, fazendo com que visitem mais plantas”, explicou o palestrante Vanderson Cristiano de Sousa, mestrando pelo Instituto de Biociências (IB) da USP.
No Brasil, existem cerca de 300 espécies de abelhas sem-ferrão. As mais populares são as jataís, as irapuás (“abelhas-cachorro”), as jataís-da-terra, plebeias, e as mirins-preguiça. Os nomes são quase todos indígenas, o que leva algumas pessoas a chamarem as abelhas sem-ferrão de abelhas indígenas. “Os índios brasileiros tinham uma relação positiva com as abelhas, e existem registros de que eles colhiam o mel que elas produzem”, contou Vanderson.

Ninhos Organizados

Cada espécie constrói um tipo de ninho: em ocos de árvores, em antigos ninhos de formiga abandonados, no alto das árvores. “Quando uma colônia está muito forte, e é preciso fundar uma nova, as abelhas vão atrás de um novo local para construir um segundo ninho. Elas procuram locais onde possam construir a entrada oposta ao vento e, dependendo do tamanho do novo espaço, elas já sabem qual é a quantidade de recursos que vão precisar alocar”, explicou Vanderson. O biólogo também contou que algumas das espécies que constroem ninhos em ocos de árvores, como as jataís e as plebeias, se adaptaram bem ao meio urbano, porque podem construir ninhos em qualquer cavidade. No próprio Parque CienTec existem ninhos em um corrimão e em um muro. Mesmo assim, ele adverte que existem as espécies que não conseguem fazer esta adaptação, e mais do que nunca é importante preservar o meio ambiente em que vivem.
Os ninhos das espécies têm entradas típicas, que podem ser construídas de barro ou cera, produzida pelas próprias abelhas. Internamente, os ninhos guardam o alimento em estruturas chamadas potes e, no centro, ficam localizadas os favos de cria, onde a rainha deposita os ovos em células individuais. A célula só recebe o ovo quando já está cheia de alimento larval. São as operárias que constroem as células e preenchem a célula com alimento, estimuladas pela rainha, que fica ali perto. Cada espécie organiza os favos de cria de uma maneira, e eles podem estar dispostos de forma organizada, ou ainda formando cachos.
Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Os potes guardam polén ou mel. As abelhas sugam o néctar da flor e enzimas de seu aparelho digestivo processam esse néctar. Ao chegar na colmeia, elas regurgitam o néctar nos potes, onde ele perderá grande parte da água, transformando-se em mel. “Cada operária vive entre 20 e 30 dias e, no caso das abelhas indígenas, produz menos de uma colher de chá de mel em toda vida”, esclarece Vanderson. Esse processo precisa acontecer em temperaturas controladas e as operárias são também responsáveis pela manutenção das temperaturas. Para isso, elas batem as asas bem rápido, criando correntes de ar. Na colmeia, o mel é utilizado na alimentação das abelhas.
A organização do trabalho das operárias acontece a partir de sua idade. As abelhas mais novas ficam dentro dos ninhos, perto dos favos de cria, e ajudam as novas abelhas a nascerem. A partir dos seis dias de idade, elas começam a executar outros trabalhos “internos”, como construção de novos potes. Só a partir dos 20 dias de idade que elas saem dos ninhos e realizam as atividade campeiras.
Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Foto: Marcos Santos / USP Imagens
O controle das operárias é exercido pela rainha a partir dos ferormônios, que são substâncias químicas liberadas por ela. Cada colmeia tem pelo menos uma rainha, mas, segundo Vanderson existem colônias com mais de uma rainha. Geralmente, as rainhas são as únicas abelhas que ovopositam na colmeia. “No caso das abelhas brasileiras, as operárias conservaram o abdômen com ovário, então elas podem ovopositar às vezes, e isso gera conflito”, diz Vanderson. Essas operárias, porém, não acasalam, então suas larvas serão sempre machos, por que são haplóides, isto é, carregam apenas uma parte dos cromossomos.
Ainda existem controvérsias sobre como acontece o surgimento de uma nova rainha. “Entre as abelhas sem ferrão, existem duas “tribos”, as Trigonini e as Meliponini. Acredita-se que, nas Trigonini, uma nova rainha surja em células de cria maiores e a larva que se tornará rainha recebe mais alimento. Entre as Trigonini, supõe-se que as novas rainhas sejam determinadas geneticamente”, explicou Vanderson.

Dia de ecólogo

Depois da exposição, o biólogo levou o público que estava assistindo a palestra para um passeio pelo Parque CienTec em busca dos ninhos das abelhas sem ferrão, em um “Dia de ecólogo”. Esse profissional estuda as relações ecológicas que ocorrem na natureza. Fazem parte de seu campo de trabalho as interações entre as espécies, populações e comunidades, e a relação delas com o meio a sua volta.
Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Foto: Marcos Santos / USP Imagens
O último senso, feito entre 2007 e 2010, encontrou 83 ninhos de abelhas sem ferrão por todo o Parque. “Tal mapeamento é importante para elaborar ações de preservação das colônias”, observou o pesquisador.
No passeio foi possível observar as entradas típicas dos ninhos das abelhas preguiça-mirim e das boca-de-sapo, perceber como algumas espécies se adaptam bem ao ambiente urbano, construindo ninhos nos muros e corrimões do Parque e sentir na pele o mecanismo de defesa das abelhas tubuna. Como elas não têm ferrão, uma forma de irritarem outros animais e se defenderem é se enrolando nos pelos ou cabelos dos animais. Uma vez ali, elas liberam um odor que atrai as demais abelhas. Não chega a ser perigoso porque elas não têm ferrão, mas é algo que pode incomodar bastante a “vítima”.
A atividade atraiu um público variado: criadores de abelha, moradores da região e estudantes. Victor Carvalho, estudante do Ensino Médio, foi à palestra acompanhado pelo professor de ciências. Ele ainda não sabe se vai querer ser biólogo, mas contou que aprendeu bastante com a atividade. Valdete Alves da Silva e a neta, Gabriela, estavam visitando o Parque CienTec pela terceira vez. “Sempre morei na região e, até o ano passado, só tinha visitado o Zoológico e o Jardim Botânico. Participo das atividades do Parque porque gosto de aprender”, disse.